pensamentos desordenados sobre o amor

Rafaela Cordeiro
3 min readMay 7, 2023
Couple Dancing, 1956, Roy DeCarava

não é nenhuma novidade pensar que as garotas crescem programadas pela disney e pelos contos de fadas a esperarem por um príncipe encantado, que chegará em um cavalo branco segurando um buquê de rosas ou — para as que se consideram diferentes da maioria — um CD do john mayer.

é infinitamente chato crescer com um padrão elevado demais acerca do amor. tá, não elevado demais, mas qualquer padrão que seja. porque o amor, assim como todas as outras coisas nesse plano de existência, pode acontecer das formas mais variadas possíveis. as linguagens do amor estão aí no conhecimento popular porque simplificam essa noção que é até um pouco óbvia, a saber, de que o amor não é passível de definição.

amor é quando passam café pra mim. quando a minha mãe acorda mais cedo para comprar pão francês na padaria e meu avô traz manteiga tartaruga. quando eu falo com os meus tios e eles se mostram felizes de falar comigo. quando os meus vizinhos me fazem pão de queijo depois de um dia cheio e me enchem de risadas. ser cuidada, amparada, mas livre. sempre livre. amor é quando valorizam o aqui e o agora, sem pensar muito no que será de nós amanhã. o amor se esconde nessas pequenas coisas que fazem a busca pelo grande propósito da vida parecer irrelevante, sabe? não preciso salvar o mundo amanhã se posso ouvir a risada do meu irmão hoje.

talvez, se procurarmos com diligência em cada uma das cenas corriqueiras que transpassam nossas rotinas, acharemos conceitos que façam do amor algo tangível. por exemplo, não é preciso muito esforço para perceber que o amor precisa necessariamente envolver outras pessoas. existe o amor próprio, você deve ter pensado. mas como saberei me amar se não for amada antes por um outro? não nascemos sabendo amar. nós aprendemos.

lacan dizia que a angústia é o afeto que revela a falta de autonomia do sujeito que se encontra impedido de responder diante de um outro cujo querer é enigmático pra ele. é por isso o amor causa certa angústia. quase nunca vamos ter acesso ao desejo do outro e, em nossas tentativas capengas, podemos nos distanciar dos nossos próprios desejos, que também nos são enigmáticos. se não temos acesso nem a nós mesmos, quem dirá ao que nos é externo. amar é um trem difícil.

eu sou uma grande admiradora do amor romântico, apesar de todas as ressalvas. há quem encontre o amor da sua vida comprando pão na padaria, em uma viagem para o exterior, na livraria. a vida acontece e gira as engrenagens capazes de unir duas almas. lindo, boy. simplesmente lindo. repito a pergunta da vocalista do kid abelha: “por que não eu?”. será que a gente precisa acreditar com força que um dia o amor vai bater na porta e só esperar ele chegar?

a disney deveria ter nos avisado que, na maioria das vezes, o príncipe raramente chega e que as princesas são cheias de traumas dos sapos que andaram beijando procurando por ele. sou contra qualquer passividade diante da vida, a não ser que ela seja inevitável. esperar o amor, porém, não é ser passivo. é confiar que, quando o momento chegar, estaremos com energia e saúde o suficiente para nos movermos em direção ao que desejamos. distante da ideação de um príncipe, mas confiante na perspectiva de que as pessoas tendem a se conectar eventualmente.

o amor é um grande talvez. uma aposta. e isso precisa ser suficiente.

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