Por enquanto

Rafaela Cordeiro
3 min readApr 10, 2023

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Há pessoas que acreditam que a vida é imprevisível. Outras, que ela segue um roteiro bem escrito e linear. Talvez exista um fio invisível que atraia essas pessoas aos pares, mantendo um equilíbrio universal entre a apatia de uns e o otimismo patológico de outros.

Pessoalmente, nunca ouvi falar de histórias que fossem interessantes por sua constância e monotonia, a não ser no caso em que disso resulte algo extraordinário. Por exemplo: Pedro estudava todos os dias, oito horas por dia, sete dias por semana, até passar no vestibular. E aí, tudo mudou, inclusive o próprio Pedro. Há um momento de quebra diante de algo que parece sólido, como a rotina. Esse tipo de enredo deveria promover a ideia de que mudanças são bem-vindas. A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Tenho dito frequentemente para algumas amigas que as coisas não são naturalmente boas ou ruins; nós que atribuímos valor a elas. Portanto, o que torna um evento positivo ou não é a percepção que temos do mundo à nossa volta, a saber, sua interpretação. Sendo assim, deve haver alguma maneira de encarar a vida aceitando-a como ela é. Deixar ser, contemplar o real, sentir o que surgir disso. Desapegar dos caminhos mentais que nos levam às escolhas de sempre simplesmente porque não permitimos que nossa interpretação da realidade seja modificada pela experiência.

Se você está lendo isso, com certeza já passou por situações onde algo horrível aconteceu. A morte de um ente querido, a perda de um parceiro, o desemprego, as incertezas… Todo mundo passa por pelo menos duas dessas experiências, o que não as torna mais fáceis de administrar. O que eu quero ilustrar é que estamos todos no mesmo barco encarregado de levar-nos ao único destino possível: o fim.

Ultimamente, tenho sentido na pele o peso de estar em diversas realidades. Estou presa ao passado, vivendo um futuro que não existe no presente. Remoendo interpretações infantis sobre situações complexas. Brincando de casinha comigo mesma, enquanto outra parte de mim se mantém produtiva, mandona, engraçada. Mas não sou eu. Liguei o automático. Ficar presente dói demais.

Hegel disse que “[…] o medo de errar já é o próprio erro.” Ter medo de viver por conta das possíveis quebras de expectativa é tão ruim quanto ir na piscina num calor de 40° e não entrar na água. A vida é viver. As partes boas, as ruins. Boa comida, boa música, gente chata, trabalho dos sonhos que descobrimos não ser tudo aquilo, casamentos de amigos, batizados, rodízios, bingos, churrascos, tesão, luto. Vida.

Não podemos ter medo de desmoronar. É claro que o sofrimento geralmente vem acompanhado de boa dose de mudança, mas se não fosse assim… Seria desconfortável de outra forma. A incerteza é uma coisa boa, bem como a inconstância que a acompanha. A única coisa permanente é a essência de quem somos. Seja lá o que isso signifique.

Um dia, em outro lugar, daremos significado às mudanças que em nós e através de nós ocorreram. Eu escolho ser otimista. Espero, de coração, que você também.

“A realidade significa realidade e isso é um mistério maior.”

Wislawa Szymborska

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